“Dor Crónica”: da prevenção, ao conhecimento e ao autocontrole

Dra. Mª Teresa Flor de Lima – Médica em Anestesiologia, Medicina da Dor e Cuidados Paliativos, Diretora Científica do Observatório da Saúde dos Povos do Hospital de Saint Louis de Lisboa, Coordenadora Científica da ADDCA, membro da IASP, EMA, AESEP, APED.

Physician in Anesthesiology, Pain Medicine and Palliative Care, Scientific Director of the People’s Health Observatory, Hospital de Saint Louis, Lisbon, Scientific Coordinator of ADDCA, member of IASP, EMA, AESEP, APED.

 

Bom Dia

Falar de Epigenética é contribuir para a prevenção na saúde e para a ajuda no tratamento das doenças crónicas.

Escolhi o tema da Prevenção da Dor porque é um dos Direitos da Carta Europeia dos Direitos dos Doentes, «evitar-se Dor e Sofrimento desnecessários» e porque 2020 é o Ano Global da Prevenção da Dor instituído pela Associação Internacional para o Estudo da Dor, IASP.

 

Durante este ano, divulgam-se estratégias de prevenção da com propostas de ação em todos os países organizando-se eventos, distribuindo-se informação e outras formas de comunicação. Além disso, pretende-se envolver as Associações de doentes e as Associações cívicas.

Logo, este I Forum da AESEP é o local ideal para, nas circunstâncias que o mundo vive, chegar a mais pessoas e de uma forma diferente e relembrar este Direito dos Doentes.

 

Primeiro, vamos explicar o que é a Dor Crónica:

 

Dor, uma pequena palavra usada por pessoas de todo o mundo para descrever um conjunto de sentimentos desagradáveis e que afeta todos nós em algum momento de nossas vidas. A dor é uma parte normal e necessária da vida como mecanismo de defesa. A dor que começou recentemente é conhecida como dor aguda, geralmente está associada a lesões nos tecidos e diminui à medida que a cicatrização avança. A dor aguda é útil, pois alerta-nos para cuidar de nós próprios, protegendo a área da lesão até que ela seja curada.

A dor é crónica quando a dor está presente há mais de três meses, geralmente não está associada à lesão tecidual contínua e pode ser uma doença por si só e sabemos que acompanha uma série grande de doenças, como as doenças reumáticas, oncológicas, neurológicas, degenerativas, entre outras.

Quando uma pessoa tem dor, ela afeta-a de várias maneiras, incluindo física, emocional e socialmente e pode ser causa de um sofrimento acentuado quando há uma disrupção dos vários domínios da saúde humana.

As tentativas de tratar a dor crónica em repouso e evitar atividades são inúteis e podem perpetuar mais a dor e acentuar a perda da capacidade de manter a sua vida normal. Na Europa uma em cada cinco pessoas tem Dor Crónica e é ainda mais comum entre populações vulneráveis, incluindo nos idosos. Aproximadamente uma em cada vinte pessoas é significativamente limitada pela dor crónica nas suas atividades diárias (como poder ir à escola ou trabalhar ou fazer as tarefas domésticas, levando a reformas antecipadas e custos económicos acentuados para a sociedade).

 

Segundo, quais as consequências da dor e o chamado impacto social:

 

A dor crónica é uma condição grave de saúde que afeta negativamente a qualidade de vida dos doentes, tanto a nível físico como a nível psicológico.

A dor pode interferir na qualidade de vida e no funcionamento geral de uma pessoa. Segundo diversos estudos, as pessoas com dor podem sofrer alterações na atenção, controle, memória de trabalho, flexibilidade mental, resolução de problemas e velocidade de processamento de informações (Hart, Wade e Martelli, 2003 ) e outras dimensões da saúde (física, psicológica, social) são severamente reduzidas (Elliott, Smith, Penny, Chambers e Smith, 1999) (Smith, et al., 2001).

Além disso, a dor está associada ao aumento da depressão, ansiedade, medo e raiva (Bruehl, Burns, Chung, & Chont, 2009). As queixas de dor causam uma grande proporção de consultas médicas (Gureje, Simon e Von Korff, 2001) (Mäntyselkä, et al., 2001) (Koleva, 2005), colocando uma grande carga sobre os sistemas de saúde e os profissionais. As condições relacionadas com a dor resultam numa redução crescente da força de trabalho.

Estamos cientes de que a União Europeia trabalha a diferentes níveis e precisamos identificar prioridades e recomendações ou obter o compromisso das instituições, mas também temos de promover atividades concretas, envolvendo todas as partes interessadas em desempenhar um papel ativo.

 

Por este motivo, o nosso compromisso é o de transferir o que conseguimos da agenda europeia para a cultura europeia: ou seja, sensibilizar, combater o estigma, melhorar a qualidade de vida das pessoas, reduzir o impacto socioeconómico da dor crónica na Europa, assegurando que o direito a evitar sofrimento desnecessário é garantido em todos os lugares e para todos.

Com o mesmo objetivo, queremos contribuir para tornar visível o invisível da dor crónica.

 

Terceiro, os objetivos da campanha da IASP:

 

Porque é preciso explorar todas as técnicas e ações indispensáveis para a prevenção e o tratamento da dor, necessitam-se de mais estudos sobre os mecanismos da dor, novas técnicas e fármacos para o tratamento mas e, no contexto atual, na prevenção, não só pelos profissionais (com mais conhecimento e educação), como pelos próprias pessoas com dor (pela necessidade de conhecerem o que é a dor, as suas consequências na funcionalidade e impacto na qualidade de vida, bem como as formas de autocontrole, quer com atitudes, pensamentos e ações).

Segundo o Presidente da IASP, Prof Lars Arendt-Nielsen, esta campanha de sensibilização reúne a comunidade global para divulgar estratégias de prevenção da dor para investigadores, clínicos e doentes, na esperança de alcançar melhores resultados para os doentes e contribuir para a missão da IASP de trabalhar em prol do alívio da dor em todo o mundo.

As ações a desenvolver durante este ano serão no sentido de compreender e informar sobre a prevenção com o objetivo de fornecer uma visão geral sobre estratégias preventivas capazes de:

-Proteger contra o aparecimento da dor (prevenção primária)
– Impedir que a dor se torne crónica ou recorrente (prevenção secundária)
– Reduzir as consequências a longo prazo (prevenção terciária)

Além disso, gostaríamos de sensibilizar que a prevenção da dor e das suas consequências é atuar em todas aos domínios e é, pelo menos, melhor que tratar.

With permission of IASP

 

Quarto, como prevenir a dor:

A comunicação é importante pois reduz a ansiedade e quando as pessoas sofrem e consultam um profissional de saúde, é extremamente importante que elas entendam o seu diagnóstico. A incerteza diagnóstica está associada à desconfiança do sistema médico e à potencial falta de adesão à terapêutica. Falar com um profissional de saúde que comunica claramente, dá a oportunidade de fazer perguntas e levantar preocupações e faz a diferença. Sentir-se envolvido nos seus cuidados pode reduzir a dor e melhorar os resultados na saúde. Enumeramos algumas estratégias:

With permission of IASP

 

  • Intervenções ocupacionais e intervenções ergonómicas físicas incluem a melhoria do equipamento e do ambiente do local de trabalho para reduzir a tensão física no sistema músculo-esquelético;
  • Os profissionais de saúde devem recomendar que a atividade física reduz a intensidade e a incapacidade da dor, além de oferecer uma série de outros benefícios, incluindo melhoria na força, flexibilidade, resistência, saúde óssea, cognição, humor e diminuição do risco de síndrome cardiovascular e metabólica uma valiosa estratégia de promoção da saúde mental na redução do risco de desenvolvimento de distúrbios da saúde mental, frequentemente associados à dor crónica;
  • A dor crónica está associada ao peso elevado, risco de comorbilidades, padrões alimentares abaixo do ideal e deficiente qualidade da dieta. Otimizar a ingestão alimentar afeta a dor crónica;
  • A ingestão dietética pode melhorar a função dos sistemas nervoso, imunológico e endócrino, afetando diretamente as experiências de dor. Perder ou manter o peso reduz a carga nas articulações, reduz a inflamação, o risco e / ou gravidade de outras doenças crónicas (por exemplo, doenças cardiovasculares, diabetes e problemas de saúde mental, incluindo ansiedade e depressão):

 

As principais dicas para nutrição e controle da dor serão apresentadas noutro painel

1.Redução da inflamação para ajudar a proteger seu corpo contra danos oxidantes através dos polifenóis.

2.Gorduras de boa qualidade como as gorduras ômega-3 e o azeite ajudam a reduzir a inflamação e a melhorar o sistema imunológico.
3. Evitar deficiências de vitaminas e minerais como a vitamina D, vitamina B12 e magnésio

  1. Ingestão de água adequada já que a desidratação pode aumentar a sensibilidade à dor, dificultar a cicatrização de feridas e agravar a obstipação. ​​

 

 

Para terminar:

 

Como prevenir o desenvolvimento da dor crónica com diretrizes gerais de saúde é manter um estilo de vida saudável, uma dieta e peso saudáveis, fazer exercício regularmente, estar atento a uma variedade de posturas saudáveis, controlar o stress com respirações profundas usando os músculos do diafragma, participar em atividades agradáveis, procurar aconselhamento ou terapia psicológica / comportamental sempre que necessário.

 

Deixo a mensagem de que há muito que você pode fazer para reduzir o impacto da dor aguda e evitar o desenvolvimento de dor crónica. Ter conhecimento e entendimento sobre a dor, manter uma boa comunicação com seu profissional de saúde, manter-se ativo e cuidar de sua alimentação e da saúde emocional reduzem a dor e previnem o desenvolvimento de dor crónica. O envolvimento ativo nos seus próprios cuidados de saúde e controle da dor faz uma grande diferença e também nós estamos aqui para fazer a diferença.

É verdade que é necessária mais investigação, examinando os mecanismos preventivos, os fatores de risco, as diferentes abordagens terapêuticas preventivas, a fim de evitar com sucesso a dor no futuro e traduzir esse conhecimento num alívio da dor em todo o mundo.

Teresa Flor de Lima

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